quinta-feira, 20 de junho de 2013

Monchique. A Serra e a Vila.







Monchique (Munt Sàquir – montanha sagrada para os muçulmanos) é uma serra do oeste algarvio, cujo ponto mais elevado  – "Foia", com 902 m de altitude – é o mais alto do Algarve e – "Picota" o segundo ponto mais alto da serra, roçando os 750 m.
Devido ao facto de estar próxima do mar, possui um clima subtropical húmido, que associado a temperaturas amenas permite uma vegetação exuberante onde predominam adelfeiras, medronheiros, carvalhos, pinheiros e castanheiros.

Carinhosamente apelidada de Jardim do Algarve,  a serra de Monchique é pródiga em cenários de sublime beleza: As vistas que se espraiam a ocidente até o Cabo de São Vicente, a norte pelo Alentejo até à Serra da Arrábida e a oriente até Faro; Os vales, barrancos e ravinas; As fontes, carreiros de água e ribeiras que nos surpreendem a cada recanto, são características «sue generis»  que conferem à serra grande importância paisagista, património natural que induz o visitante à contemplação.
Todavia, Monchique é um concelho pobre. Outrora a pastorícia, a tecelagem de lã e linho, a produção de madeira e de produtos agrícolas de muita boa qualidade produzidos em socalcos nas encostas da serra, contribuíram para a remota prosperidade do que é agora um concelho pobre. O isolamento geográfico e a morfologia do terreno não lhe permitiram acompanhar o progresso e a exigente produção intensiva e massificada, condenando a população autóctone a uma economia agro-pastoril de subsistência. E, embora atualmente esteja a ser parcialmente contrariado por uma notável dinâmica nalguns setores muito específicos (suinicultura, turismo de ambiente e restauração), o declínio continua. A população de todo o concelho, que há 70 anos era superior a 14.000 habitantes, está agora reduzida a não mais de 6.000, dos quais perto de 1.000 são estrangeiros.

No vale, entre os dois picos Foia e Picota , situa-se a sede do concelho, uma povoação com o mesmo nome da serra Monchique cuja fundação vem do tempo da ocupação romana. Emergiu, nesse tempo remoto, à beira de uma ribeira que ainda hoje corre no seu centro por um canal subterrâneo. Depois, com o desenvolvimento urbano, as casas foram trepando em cascata pelas encostas, em ruas estreitas e sinuosas num dédalo de ruelas, cantos e recantos. As construções, com a arquitetura característica do Algarve, onde predomina o branco nas paredes e o vermelho nas coberturas em telha mourisca, têm a particularidade de as cantarias serem em sienito, uma rocha relativamente rara, todavia ali abundante. Esta abundância de sienito, permite que seja também usado em lancis, calçadas, capeamentos e muros. Tudo isto dá hoje à vila uma beleza pitoresca emoldurada num verde luxuriante. 


Foi nesta maravilhosa vila e neste contexto já de pobreza que eu nasci há 70 anos e vivi a primeira infância.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sopas de leite



Apesar de ter nascido numa família pobre, numa terra igualmente pobre, não devo ter passado fome, porque o meu pai era cabreiro, ou melhor, era cabreiro quando nasci e nos meus primeiros anos, guardava um rebanho de cabras, que não lhe pertencia, pelas encostas da serra de Monchique. Por isso não me faltou um alimento de alto valor nutritivo, essencial ao meu desenvolvimento, refiro-me obviamente, ao leite de cabra. Muitas das refeições da minha família, eram constituídas por sopas de leite e esporadicamente, também por carne de cabrito.
Saí de Monchique há sessenta e dois anos, mas a minha memória, embora já no seu tempo final, ainda guarda fragmentos avulsos da minha vivência naquela vila serrana. Lembro-me de algumas vezes ter acompanhado o meu pai com rebanho nos locais de pastoreio perto da vila e de ele me ensinar a admirar a Natureza, observar os animais, as aves, os mamíferos e insetos, como eles nos dão bons exemplos e nos ensinam com os seus hábitos a sobrevivermos no mato comendo frutos silvestres, raízes ou chupando flores.
Na minha memória ainda vejo o meu pai a esfolar um chibo em plena serra soprando por uma cana para fazer entrar o ar por debaixo da pele do animal, para que esta se soltasse com facilidade. Naquele dia quando ele atirou com a funda uma pedra ao chibo que teimava a não se juntar ao rebanho, partiu-lhe uma perna e como o animal com a perna partida não conseguiria pastar na serra, o melhor foi matá-lo e levá-lo para casa já esfolado e limpo. Lembro-me de o ver a fazer uma eira com o rebanho. As cabras andavam à roda num autêntico turbilhão, mudando o sentido de vez em quando, com a pressão estonteante da rotação forçada à bordoada, as cabras urinavam e defecavam constantemente. A mistura de terra, caganitas e mijo, pisada milhares de vezes pelas patinhas das cabras, fez que o piso depois de seco, equivale-se a uma laje de cimento.
É extraordinário lembrar-me de coisas de quando era menino. Às vezes pergunto-me, se terei assim tão boa memória ou será que nalguns casos julgo lembrar-me por me terem contado.
A minha mãe por vezes, contava-me episódios da minha infância, começava dizendo: "eras muito espanhol" querendo com isto dizer que eu me expressava mal, que tinha dificuldade na fala. Sei por ela que nem o meu nome dizia corretamente. Lembro-me de uma vez me terem dado um gatinho e de o levar para casa, era preto com metade da cara branca, dei-lhe o nome de Cara Branca, a minha mãe contava que eu lhe chamava Cábanca.
Lembro-me de o meu pai passar com o rebanho na rua onde morávamos a caminho do curral onde as cabras pernoitavam.
Um dos episódios que a minha mãe me contava, tem a ver com a passagem do rebanho e com as sopas de leite. Contava que, quando eu tinha quatro anos, um dia disse-me para eu dizer ao meu pai, quando ele passa-se com o rebanho, para tirar leite porque ela não tinha jantar, depois perguntou-me:
– Sabes dizer?
– Im – respondi.
– Então diz lá.
– Pá, ti ei mã nan tem á.
Ela achou que o meu pai perceberia.
Quando o meu pai passou com os animais, disse-lhe:
– Pá, ti ei mã nan tem á.
E ele sem perceber:
– Quê? Que estás para aí a dizer? 
Eu repeti:
– Pá, ti ei mã nan tem á.
E o meu pai sem paciência:
– Vai para o raio que te parta! Que eu não te percebo!
Furioso, fui às tetas de uma cabra e simulando que a ordenhava gritei:
– Ti ei, ti ei, ti ei.
– Ah, tiro leite! – Exclamou o meu pai percebendo finalmente.
– Im!!! – disse eu, orgulhoso da minha eloquência.

Ainda hoje continuo a gostar de sopas de leite pela memória que tenho delas. Às vezes ainda as faço, na procura do sabor de outrora, com o leite desnatado e pasteurizado de pacote, mas claro, não têm o mesmo sabor. O leite de cabra fresco, tem um sabor e um odor próprio, muito agradáveis.
 
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Gosto de ler (narrativa pelo método número puxa palavra)

Número puxa palavra é um exercício de escrita criativa que consiste em escrever um texto coerente que incluí números em sequência. Neste caso de um a dez e depois na sequência inversa.



Gosto de ler

Quando era miúdo gostava de banda desenhada, até tinha um herói preferido, o Zorro, aliás, dois, pois ele era coadjuvado pelo Tonto, um índio tão heróico quanto ele. E se considerarmos o inteligente cavalo branco, Silver, os heróis eram três.
Eu ainda não sabia ler quando comecei a interessar-me por banda desenhada, tinha quatro ou cinco anos, mas o meu irmão lia para mim as legendas enquanto eu via os bonecos. Aos seis já entendia as onomatopeias e algumas interjeições.

Ao gosto por aventuras em banda desenhada somou-se por também em texto. Na época, a escolaridade obrigatória começava aos sete anos, mas eu, por vicissitudes que não interessa aqui referir, só entrei na escola aos oito. O meu irmão, nove anos mais velho que eu, e os livros de banda desenhada, aceleraram a minha aprendizagem, de modo que eu aos dez anos já sabia ler e escrever. Nessa altura abriu na vila uma pequena biblioteca pública e eu, ainda no dia da abertura, inscrevi-me nela como leitor. Fui um dos seus primeiros utentes, o meu cartão tinha número nove, suponho que o meu irmão, que me levou e se inscreveu antes de mim, ficou com o número oito. Significa isto que apenas sete pessoas se inscreveram antes de nós. Numa época em que a maioria dos adultos era analfabeta é de supor que das seis estantes, a dos livros infantis e juvenis fosse a mais procurada. Cinco prateleiras de aventura e fantasia ao dispor da criançada ávida de emoções. Independente da idade cada leitor podia levar, gratuitamente, até quatro livros para ler em casa, na condição de, no decorrer da quinzena, os devolver em bom estado, podendo depois levar outros. Eu não levava tantos, no máximo levava três. A minha preferência eram os livros de aventuras, lembro-me dos de Emílio Salgari. Guardo na memória o título de dois, um deles “O corsário negro” e o outro “Os últimos flibusteiros”.

Diamantino Rosa

Mafalda



Uma das minhas recordações vivas da primeira infância é a do nascimento de uma menina quando eu tinha cinco anos. Uma recordação que me ocorre sempre que uma situação relacionada com um parto se apresenta no meu quotidiano. Vejo-me então a brincar na rua, junto à porta da casa da vizinha Maria, uma amiga da minha mãe, num bairro pobre da vila onde nasci, para onde os meus pais se tinham mudado havia pouco tempo. Era uma rua sem saída, a casa ficava ao meio no lado direito, a da minha mãe, ao fundo no lado esquerdo.
Da soleira da porta onde me encontrava a brincar com um carrinho de lata, ouvia os sons que vinham do interior da casa, vagidos e palavras que me chegavam indefinidas. Desobedecendo à ordem da minha mãe entrei na casa e depois no quarto, um cubículo mal iluminado e empestado de cheiro a petróleo queimado. Havia uma janela que dava para a rua, mas estava fechada. Na mesa-de-cabeceira dois candeeiros a petróleo de chamas bruxuleantes lançavam uma dança de sombras nas paredes. Na cama estava deitada uma mulher descomposta. De joelhos em cima da cama estava uma mulher, que, pelo que a fraca claridade dos candeeiros me permitia distinguir, pareceu-me ser muito nova. De pé ao lado da cama estava a minha mãe. Quietei-me num canto onde a luz dos candeeiros mal penetrava. Nenhuma das três mulheres deu pela minha presença, então assisti assombrado ao nascimento de uma criança.
Ainda tenho bem presente esta imagem: A jovem parteira segura a criança, ainda ligada à mãe pelo cordão umbilical, que começa a berrar. É uma moça, diz a jovem, depois coloca o pequeno ser no regaço nu da mulher deitada. Fixei o olhar na gravura por cima da cabeceira da cama, onde bruxuleava a luz dos candeeiros, representando a Virgem Maria com Jesus ao colo. Lembro-me deste pormenor do quarto da vizinha Maria.

Perdi o interesse de continuar ali e voltei para a porta onde retomei a brincadeira no pial. Minutos depois a minha mãe chamou-me. Voltei a entrar na casa e no quarto, vi a bebé ao colo da minha mãe, ela disse-me que era uma menina e pergunta-me que nome lhe devia dar.
Alguns anos depois, já adolescente, contei à minha mãe que me lembrava de ter visto o nascimento da Mafalda, ela confirmou-me a recordação e contou-me que fui eu a sugerir o nome que lhe deram. Também me contou, que a rapariguinha que eu dizia ter visto com a bebé recém-nascida, tinha na altura só dezasseis anos (talvez ela tenha dito dezassete ou mesmo dezoito, já não me lembro bem, mas menos de vinte foi de certeza), tinha aprendido o ofício com a mãe, uma parteira com grande prestígio na vila, a quem desde mocinha acompanhava nalguns partos e como naquele dia a mãe doente não pode ir, foi ela e, segundo a minha mãe, deu bem conta do recado e se revelara depois numa boa parteira, em cujas mãos já muitas mulheres tinham depositado as suas vidas e dos seus filhos.
Jamais esquecerei ou deixarei de dar importância a este episódio da minha infância. Porque na verdade ainda hoje sinto ter um vínculo emocional com a menina que um dia vi nascer e para a qual sugeri o nome. Ela viveu comigo uma parte da sua meninice, foi minha amiga e companheira, em óbvias e inocentes brincadeiras infantis. Gostava muito dela e ela de mim, de maneira que ainda hoje lamento que o destino nos tenha separado.
Infelizmente já não sei da Mafalda. Não a vejo há cerca de quarenta anos, mas vem-me muita vez ao pensamento. Então Imagino-a bem e de saúde. Imaginá-la bem e de saúde, é uma forma de eu estar bem com as minhas recordações e até comigo próprio.

Não há muito tempo sonhei com a Mafalda. Sonhei que estava a ensinar-lhe a ver as horas. Neste sonho eu era como sou agora e ela como era em criança. Ela era uma criança muito bonita, tanto na atmosfera evanescente do meu sonho como na realidade da sua vida. Também era muito inteligente. Não sei se fui eu quem lhe ensinou a ver as horas como no sonho, nem tampouco sei se eu sabia ver as horas quando com ela convivi, porque naquela época, relógios era coisa que gente pobre não tinha, mas fui comigo que ela aprendeu os rudimentos da escrita e do cálculo.
Como ela era afilhada da minha mãe, isso gerava a proximidade das nossas famílias, embora havendo alguns períodos de afastamento, voltávamos a nos reencontrar em algum lugar e vivermos juntos. Um desses lugares foi uma herdade agrícola, para onde fui com os meus pais. Aqui ela começou a dizer-me: “Quando for grande caso contigo” (assim ou de outra forma parecida, mas com este sentido). Para mim, um garoto de dez anos, era uma frase sem nexo a que inicialmente não dava importância, nem ela certamente. Se na minha mente limitada de criança, ainda não existiam os significados definitivos das palavras, muito menos existiam na dela.
Foi, nesse período das nossas vidas, no decorrer das nossas brincadeiras, que eu lhe ensinava a ler e a escrever, também a conhecer os números, de maneira que quando ela entrou para a escola já sabia soletrar e contar. Recordo-me como ela aprendeu a contar no decurso de uma das nossas brincadeiras.
Havia perto das nossas casas, uma plantação de grão-de-bico. Os grãos já secos nos invólucros, rumorejavam à nossa passagem por entre as plantas. Então apanhamos e debulhamos duas mãos cheias de grãos e fomos para uma zona de sombra onde habitualmente brincávamos. Sentados no chão, fizemos montinhos de grãos, depois, de grão a grão, eu contando e ela repetindo, transladávamos um montinho de um lado para outro. Era como se fosse um jogo. Desta maneira ela aprendeu rapidamente a contar até dez, depois até vinte e assim por diante. Na continuação destas brincadeiras, aprendeu a somar e a subtrair. Era a menina, que na escola mais sabia. Afirmava a mãe dela.
Já ela teria oito anos, e eu treze, e ainda reiterava inquisitiva: "Quando formos grandes, vamo-nos casar! Não vamos?" Dando, creio que inconscientemente, à palavra casar, uma intensidade inusitadamente de paixão. Eu, sem ter a noção de ser a assunção de um compromisso, dizia-lhe que sim, que casávamos quando fôssemos grandes.
Se era uma paixão, em determinada altura, não era só dela por mim. Quando terminei a escolaridade obrigatória perdi o convívio com a Mafalda. Fui servir para uma quinta muito longe da herdade onde ela continuou a viver. Os meus pais também acabaram de sair da herdade.

Os anos passaram-se, aos quinze anos fui para Lisboa, uns anos mais tarde, a irmã mais velha da Mafalda casou com um marinheiro e foi viver para a região de Lisboa. Um dia fui visitá-la na sua casa e reconheci logo, na moça vistosa que lá estava, a menina com quem vivera uma paixão infantil dez anos antes.
Entrei na casa em silêncio, obedecendo ao sinal prévio da irmã dela. Ela estava distraída, de cabeça baixa fazia algo que já não recordo, mas ao perceber que um estranho entrara em casa ou pelo estranho silêncio se se impôs, levantou a cabeça e olhou para mim.
Vi a surpresa no seu rosto; Vi o eu rosto resplendecer de alegria ao reconhecer-me; Vi os seus olhos percorrerem o meu corpo dos pés à cabeça, vi-os exclamarem: Como estás grande!
Na altura deste encontro eu estava a cumprir o serviço militar obrigatório, tinha vinte e três anos e ela, dezoito. Ela estava uma mulher feita, muito bonita, embora também muito tímida ou não estava à vontade a falar comigo, mas a empatia entre nós reacendeu-se. Quando nos sentamos à mesa para lanchar, fez para ficar ao meu lado e permaneceu todo o tempo, com a sua perna encostada na minha, surpreendendo-me.
Tivemos (ou deram-nos) a oportunidade de ficarmos sós a conversar. Recordamos então as nossas antigas brincadeiras na herdade. É provável que tenhamos recordado os montinhos de grãos. Mas não falamos da sua pueril insistência em dizer que casaria comigo quando fosse grande nem da minha infantil assunção de que assim seria. Mas a recordação do nosso passado de afecto e cumplicidade, a promessa de que um dia, quando fossemos grandes, nos casaríamos, estava presente na minha cabeça e não pude deixar de pensar que estava perante a mulher da minha vida, a minha terra prometida. Agora ela já era grande, ademais, com uma beleza que me fascinava.
Tomei, estupidamente, por certo que ela estava livre para mim, vendo aquele encontro como prenúncio de um romance de amor e naquela hora pedi-lhe namoro.

Ela baixou a cabeça e, pareceu-me, a voz tremia-lhe um pouco quando disse que não podia aceitar o meu pedido, pois estava prometida a um moço da terra. Mas eu soube que ainda naquele dia, ela pediu conselho à irmã e que esta lhe disse que não podia interferir na sua vida, nas suas escolhas, aconselhá-la seria uma responsabilidade que não queria assumir.
Quando chegou a altura de despedir-me dela, escondi-lhe na mão um papelinho com a minha morada e uma frase: Amo-te e quero casar contigo, quero cumprir a minha promessa, escreve-me.
Nunca me escreveu. Foi tão grande decepção, que ainda hoje me dói.
Falta-me dizer, como remate desta história, que uns anos depois voltei a encontrar a Mafalda e mais uma vez toda a intensidade dos meus sentimentos por ela ressuscitaram, mas tanto ela como eu já tínhamos casado e a conversa que estabelecemos, apenas por uns minutos, foi meramente de circunstância. Desde aí nunca mais a vi. Todavia, tive algumas vezes notícias dela pelos pais e irmão.
Os pais dela também vieram para a região de Lisboa e moravam não muito longe de mim. Sempre que os encontrava perguntava-lhes por aquela filha. Na primeira vez a mãe dela, sabedora do meu pedido de namoro, disse-me que ela não soubera escolher marido e nas outras, que era muito infeliz. Nunca me disse concretamente porquê, mas por algumas palavras suas, deduzi que o marido era alcoólico e ela, vítima de violência. 
Como eu gostaria de poder redimir a minha amiga de infância da sua infelicidade e, por osmose, redimir-me a mim mesmo. Mas as coisas são como são.
Já dei por mim a pensar, como seria agora a minha vida se tivesse casado com ela, acaso ela tivesse aceitado o meu pedido. Mas não há como saber como seria o que não aconteceu.  






sexta-feira, 31 de maio de 2013

Lágrimas de mulher



  


Tenho alguma dificuldade de memorizar, principalmente acontecimentos recentes. Estranhamente, o mesmo não acontece com os de um passado longínquo. Há, desse passado, episódios da minha vida que insistem em permanecer na minha memória.
Estas lembranças não ocorrem por minha espontânea vontade, mas porque algo as desperta. Isto aconteceu ao encontrar uma senhora que conheci quando jovem. Ela contou-me algo que me perturbou profundamente, tanto que ainda agora me custa reproduzir. Ela era irmã de uma outra mulher, dona de uma quinta rural para onde fui, aos doze anos, servir em regime de cama e mesa, para ajudar na lavoura e cuidar dos animais. É esse episódio que me disponho agora escrever, recordando-o através da névoa que separa aqueles anos destes actuais.

Eu vivia com a minha mãe na cidade de Lagos, no Algarve, já concluíra os quatro anos da escolaridade obrigatória e feito o exame de admissão ao liceu, mas como a minha mãe não tinha posses que permitisse eu continuar a estudar, e como eu não tinha idade para ser admitido numa oficina ou numa fábrica, para não andar na rua a vadiar, a minha mãe mandou-me para aquela quinta para trabalhar como «criado».
Naquelas circunstâncias ser o «criado», por não existir contrato nem horário e a remuneração consistir apenas num local para dormir e alimentação, era uma forma de escravatura a que estavam sujeitas muitas crianças pobres, fossem rapazes ou raparigas. Mas, no meu caso em particular, foi feliz o tempo que passei naquela quinta e, apesar de já se terem passado muitos anos, nunca esqueci os quinteiros, um casal, ainda hoje os recordo com um sentimento de gratidão pela maneira tão pouco comum como me trataram. Não exagero ao dizer que fui por eles tratado, como se fosse da família, como se fosse filho deles. Na altura isto parecia-me ser natural, porque eu era demasiado novo, desconhecendo as convenções que moldavam a vivência entre patrões e criados, tiveram que passar alguns anos para realmente compreender o quanto teve de incomum.

Não sei ao certo o dia da semana que fui para aquela quinta, tampouco sei o mês, mas suponho que foi no início de Julho, lembro-me que havia figos lampos temporãos maduros. O ano foi o de mil novecentos e cinquenta e sete, disto tenho a certeza.
Naquele dia, uma tarde tórrida, fui com a minha mãe para o Largo da Porta de Portugal esperar o quinteiro que me levaria logo naquele dia se gostasse de mim, da minha robustez.
A minha mãe esperava no passeio junto às casas e eu na margem da ribeira, que naquele tempo formava defronte da cidade uma enorme laguna. A maré enchia e os raios do sol refulgiam na superfície da água. Os pescadores nos pequenos barcos ali fundeados, preparavam as artes para a pesca, zarpariam para o mar assim que a maré enchesse.


Houve um tempo que desejei ser pescador, mas depois de uma má experiência no mar (enjoo), o que eu definitivamente queria era aprender um ofício, ter uma profissão remunerada e com progressão na carreira (claro, que estas expressões eu não as conhecia na altura), até pensava vir ser carpinteiro naval. Primeiro porque gostava do cheiro da madeira acabada de cortar, depois porque era uma boa profissão, sobretudo naquela cidade de pescadores. Havia outras opções já por mim equacionadas, ofícios igualmente interessantes, mas que eu só os preferiria como último recurso, eram eles: ferreiro ou carpinteiro de carros (refiro-me a carros de bestas obviamente). Outros como os de albardeiro, sapateiro ou correeiro, estavam à partida excluídos por serem exercidos estando o artífice sentado, o de ferrador também estava excluído, nunca seria ferrador, às vezes passava perto da oficina de um ferrador e de lá vinha um insuportável pivete a excremento e creolina, que, juntando a impressão que me fazia o cravar das ferraduras nas unhas das bestas, fazia-me não querer tal profissão. Mas o grande problema, não era a escolha de um ofício, era eu não ter idade nem tamanho, para ser admitido numa oficina.
Naquele tempo havia em Lagos um estaleiro de reparação naval na margem da ribeira, paralela à Rua da Porta de Portugal, que se estendia até à praça do peixe. Eu gostava de ir para ali, agradavam-me os cheiros e fascinavam-me os trabalhos de reparação dos barcos. Carpinteiros serrando e pregando, calafates colocando estopa de cânhamo embebida em alcatrão entre as tábuas, pintores dando cores garridas e nomes de gente a canoas e botes. Era o estaleiro do mestre Pedro, um conceituado construtor de barcos, também com oficina na Rua dos Burros ali bem perto.

Um dia fui com a minha mãe pedir trabalho ao mestre Pedro, mas ele, lançando um olhar profissional à minha pequena envergadura, disse-me com desalentada delicadeza: "Quando fores maior aparece". Depreendi, que seria ali admitido quando fosse maior e decidi que um dia ali voltaria (adianto já, foi na oficina do mestre Pedro que recebi o meu primeiro salário).

Vindas da torre da Igreja de São Sebastião soaram as quatro horas da tarde e no outro lado do largo a minha mãe chamou-me. Atravessei o largo e fui para o pé dela. No mesmo instante uma carroça passou por nós e parou à frente da adega ali existente. Da carroça apeou-se um homem que nos olhava e se dirigiu para onde estávamos. Parou à nossa frente, com a mão esquerda tirou o chapéu e com a direita cumprimentou a minha mãe com um aperto de mão.
Era o jovem quinteiro a quem a minha mãe me oferecera como «criado». Digo jovem, mas naquele momento pareceu-me ser um velho. De pele escura, barba por cortar com mais de uma semana, pareceu-me mais velho de que realmente era. Hoje em dia, quando vejo um homem com quarenta anos, acho-o jovem, mas  naquele tempo, aos olhos de uma criança, um camponês com esta idade, com barba crescida e mal vestido, parecia ser velho. Porém, o olhar dele era jovial, recordo-o.
Depois de cumprimentar a minha mãe, o homem virou-se para mim e, ainda segurando o chapéu, também me estendeu a mão. E eu, a quem nunca antes um adulto estendera a mão, acedi honrado ao cumprimento oferecendo-lhe a minha mão e tirando também o meu chapéu, um miserável chapéu de palha que me protegia do sol. Ele perguntou-me como eu me chamava e eu disse-lhe o meu nome. Então ele fez-se muito sério, como se eu tivesse dito alguma inconveniência, da qual me sabia absolutamente inocente. Repetiu o meu nome e ficou alguns segundos a olhar por cima de mim para a outra margem da ribeira. Sei hoje, que ele se debateu naquele momento, com uma poderosa força rememorativa de um pungente episódio da sua vida.
Depois, virando-se para a minha mãe, já sem o olhar longínquo, disse:
"Vou levá-lo".
A minha mãe murmurou: "
Pode levá-lo", para logo, como se tivesse arrependido, ficar triste e de braços caídos. Quando ele se quis despedir teve que ir buscar a mão negligente da minha mãe para a apertar.
A minha mãe beijou-me quando disse:
"Vai filho, um dia vou lá para te ver". Não me lembro se alguma vez foi, mas admito que sim. Depois abalou cabisbaixa enquanto eu, náufrago abraçado à velha mala de cartão, como se ela fosse uma tábua de salvação, fiquei à beira do lancil a olhar para as suas costas, vendo-as como nunca as vira antes, arqueadas, até ela desaparecer na esquina da Rua Das Portas de Portugal com a Rua dos Burros. Se estava com pressa, pois tinha feito uma pausa no trabalho para me levar ali, ou se a angustia a fez abalar, é o que absolutamente ignoro.
Aquele que seria dali em diante o meu patrão, colocou uma mão no meu ombro e amistosamente mandou-me subir para a carroça e sentar-me na boleia, e eu, na assunção da minha condição de seu «criado», obedeci.
Não sei se a minha mãe recebeu algum valor por isto que acabo de contar, se recebeu, fui vendido. Às vezes penso nisto, um pensamento que me incomoda. Nunca quis questionar a minha mãe sobre isto, temendo a sua confirmação. Hoje, porém, posso dizer que foi o melhor que me aconteceu no meu tempo de criança.

Recordo o meu patrão como um homem bom, o nome foi-se-me, mas retenho a sua figura a fazer lembrar um sarraceno. Olhos pequenos e agudos, num rosto longo e tez trigueira. Nas atitudes e falas ostentava a rudeza de um homem do campo... melhor dizendo, parecia um homem rude, mas na verdade não o era, além de bem-educado, tirava sempre o chapéu quando cumprimentava alguém, sempre me tratou com delicadeza, embora não falássemos muito um com o outro, mas a incomunicabilidade residia no fato de tanto ele como eu sermos de poucas falas. 
Da minha patroa retenho o nome e a fisionomia, ao contrario do meu patrão, tinha comigo uma interação muito pessoal. É ainda com alguma emoção que a recordo. Era muito bonita e, embora fosse uma mulher do campo, sabia ler e escrever, o que não era comum naquele tempo e, sobretudo, era muito indulgente, ou talvez a palavra correta seja carinhosa. A mais perene recordação que tenho dela é o momento em que a conheci. Tinha eu acabado de chegar à quinta e estava à sombra da parreira junto das casas do monte com o meu patrão, ele ia mostrar-me as instalações dos animais quando, retendo-me seguro pelo braço, anunciou: "Vem ali a patroa", ele tinha o hábito de se referir à mulher por a patroa, como se ela também fosse patroa dele.
Segui a direção do seu olhar e a minha atenção também se prendeu no vulto feminino que subia o caminho carreteiro de ligação entre as casas e a várzea. Era uma mulher pequena, com um cesto de vime no gancho do braço, vestida à maneira camponesa: Saia redonda até aos tornozelos e blusa de punhos. Na cabeça, por baixo do chapéu de palha de abas largas e flexíveis, um lenço, que à semelhança de um «niqab» muçulmano, lhe tapava parte da cara. Já ao pé de nós, na sombra da latada, soltou a ponta do lenço que lhe escondia as feições, revelando um rosto de pele lisa e clara. Eu, habituado a ver nas pessoas pele trigueira, fiquei fascinado com a pele clara da senhora e naquele momento achei-a a criatura mais bonita que já vira, porém, fiquei com a impressão de ter a sua expressão qualquer coisa de muito particular, como a sugerir a existência de uma profunda tristeza. Os seus olhos eram de um azul luminoso, mas tristes. Felizmente, foi pouco duradoura aquela primeira impressão, embora nunca a tenha esquecido. Não muito tempo depois, como se a minha presença tivesse derretido tudo aquilo que a entristecia, vi no seu rosto os sorrisos mais doces que me é dado recordar. Mas foi o momento seguinte que se gravou na minha memória como uma cicatriz inapagável.
Quando a senhora parou à nossa frente, o marido, pousando a mão no meu ombro e puxando-me contra si, num abraço de certo modo paternal, disse-lhe: "
Aqui está o mocinho". Então ela, levou a mão ao cesto, tirou dele dois figos lampos e ofereceu-me, e no mesmo tempo perguntou-me como eu me chamava. Eu aceitei os figos, mas não respondi logo à pergunta, a minha faculdade de falar estava como que paralisada (a timidez sempre foi o meu inimigo invencível). Deixei passar algum tempo, não muito, apenas uns segundos, mas quando finalmente lhe ia responder, o meu patrão antecipou-se-me e disse-lhe o meu nome. Ela fixou no marido um olhar demorado, depois, virando-se para mim, disse: "Espero que te dês bem aqui", disse isto com um tremor na voz, e vi que ela tinha olhos rasos de lágrimas. Esta imagem ficou como que eternamente emoldurada no meu cérebro. Uma cena semelhante, em que a senhora ficou repentinamente chorosa, viria acontecer uns dias depois.

À frente das casas havia um poço circundado por um parapeito branqueado a cal e tapado com uma espécie de estrado em madeira já carcomida pelo muito sol e chuva, eu às vezes, como que atraído por uma força mágica, espreitava-lhe a fundura pelas frestas das tábuas, a minha imagem refletida na superfície da água fascinava-me. Numa dessas vezes, a minha patroa ao ver-me debruçado no parapeito, disse-me para eu sair dali, que não havia ali nada para ver, que aquela água era venenosa. Claro que a água não era venenosa, como vim a compreender mais tarde. O que a minha patroa disse, não foi mais de que um subterfúgio, para me fazer desinteressar pelo poço, receando, mesmo sabendo-o tapado, que eu caísse nele, pois num outro dia, ao ver-me outra vez debruçado no parapeito disse-me, num fio de voz e com os olhos cheios de lágrimas: "Tenho medo que caias no poço". Esta é também uma imagem que me ficou dela.

Como para os criados não haviam mordomias, fiquei a dormir no corredor da arramada à frente das manjedouras. Não tinha enxergão, apenas mantas, fazia a cama todas as noites, colocando palha no chão, acordava com as narinas cheias de poalha e palhas no corpo e cabelo. A palha da minha cama servia depois para fazer a cama das vacas. Dormia mal, incomodado com cheiro a esterco e com o barulho que as vacas faziam a ruminar e a baterem com os cornos contra a madeira das manjedouras, outras vezes acordava sobressaltado, quando alguma vaca deitada se levantava berrando. Mas pior que isto era a solidão e as saudades de minha mãe.

Na segunda semana após chegar à quinta fiquei doente, foi apenas uma constipação ou o início de uma gripe, motivada, creio, por ter secado a roupa no corpo. Como dormia mal, andava sempre com sono, por isso aproveitava qualquer oportunidade para fazer uma soneca.
Uma das minhas tarefas iniciais foi regar o milho, para isso começava por abrir a água do tanque de rega, sacando à marretada, um pau enrolado num trapo, que tapava o furo de escoamento, ficando logo ali encharcado, depois encaminhava a água por um rego até à primeira leira, quando esta estivesse cheia, passava a água para a seguinte, abrindo-a com a enxada e fechando a já cheia e assim sucessivamente. Como encher de água uma leira, demorava alguns minutos, pensei então aproveitar aquelas curtas pausas, para dormir uns sonos leves. Deitava-me entre os pés de milho na leira que iria encher a seguir e para acordar no momento certo, punha os pés descalços em cima do muro de terra que separava as duas e ali, com a frescura da terra e a sombra do milho a refrescar-me as carnes adormecia. Quando sentia a água nos pés acordava, a tempo de mudar o fluxo da água, mas esta prática não era perfeita e eu acabava encharcado e enlameado, o que me levava tomar um banho no tanque com a roupa vestida secando-a depois no corpo. Um dia, depois da rega, fiquei com febre, dores no corpo e tremia como uma folha de milho ao vento. Creio que foi por ter secado a roupa no corpo que fiquei doente.
Como as dores no corpo e os calafrios não me permitiam trabalhar, a minha patroa levou-me para a casa de habitação, deitou-me num catre de lona com lençóis lavados e tratou-me como a mais extremosa das mães trataria um seu filho doente, com mesinhas simples e caseiras, agora antiquadas, mas certamente mais eficazes do que os remédios das farmácias. Ali convalesci durante três ou quatro dias. Restabelecido e alegre como um pintassilgo pude voltar às minhas tarefas habituais.
Depois daqueles dias de enfermidade, as minhas condições de alojamento, passaram por uma importante alteração. A minha patroa, ainda naquela manhã, disse-me clara e terminante, que daquele dia adiante eu dormiria na casa. Concedo, quem estiver a ler este texto, a liberdade de imaginar a minha satisfação na altura, porque me faltam as palavras para a descrever.


Vivi na quinta durante um tempo que não consigo agora determinar com precisão, mas lembro-me de ter passado lá um Natal, por um presente que recebi (que me acompanhou por muitos anos), e por uma paradoxal história de amor e traição, que a minha patroa me contou na noite de consoada.


Estávamos sentados nas cadeirinhas quase em cima do borralho, bebericávamos café de cevada e depenicávamos filhoses, mais atrás, com a cabeça reclinada no espaldar da cadeira de braços, ressonava o meu patrão. Na telefonia a pilhas era transmitida a missa do galo pela Emissora Nacional, mas a minha patroa não prestava atenção. Contou-me então que a sua mãe costumava fritar as filhoses na lareira, enquanto ela, ainda menina, ajudava polvilhava-as com canela e açúcar logo que saiam do caldeiro de cobre. Depois disse que mãe quando jovem, era a moça mais bonita da aldeia e que se apaixonara por o mais novo de dois irmãos, ainda seus primos. Uma paixão que aflorou com êxtase, quando por brincadeira numa desfolhada, na prática do jogo tradicional do milho rei, ele a beijou nos lábios, um beijo que ela sem pensar no escândalo consentiu.
A minha patroa levantou-se, para ir buscar umas folhas de pepel, onde estavam impressos alguns versos, que me mostrou. Depois continuou a falar da mãe, numa oralidade enfática e pausada, como quem conta um conto.
Conto que tentarei reproduzir a seguir segundo a minha memória, mas é possível que a minha versão esteja muito aquém da que me foi contada.

Tinha a moça quinze anos e o moço, dezoito. Aquele beijo que podia passar apenas por uma brincadeira juvenil numa noite de festa despertou na jovem um sentimento arrebatador, contido desde sempre, já que se lembrava de gostar dele desde que dele se lembrava. Um beijo que para ela selou um pacto de amor e compromisso: Ele seria o homem da sua vida.
Mas o moço, movido pela sede de aventura, ofereceu-se como voluntário à marinha de guerra e em comissão de serviço foi para Goa, na Índia Portuguesa. A jovem pretendia esperar por ele, no cumprimento da promessa que fizera a ela própria, mas foi obrigada pelos pais (como era prática naquele tempo) a casar com o outro irmão. Os pais dela viam neste mancebo as qualidades de um bom chefe de família, trabalhador rural e pescador, bastante estimado na aldeia.
No entender dos pais da moça, o irmão mais novo era o oposto. Presunçoso e agarrado aos livros, não tinha apetência para os trabalhos do campo nem da pesca, passava os dias na cidade onde vivia na casa de um tio, um anarquista que colaborara no derrube da monarquia. Aquele rapaz não augurava um bom casamento para a sua filha, a moça mais bonita da aldeia.
O destino trocou as voltas ao coração da jovem. Que, com um temperamento passivo não teve coragem de enfrentar os pais. Acabou por casar com aquele que não queria nem amava e o seu sonho esfumou-se para dar lugar ao pesadelo. Pois, depois do casamento, o marido começou a passar muito tempo na taberna a beber e a jogar, regressando à casa já embriagado e muitos dias faltava à faina no mar.
Quando o jovem marinheiro regressou da Índia, encontrou aquela que o amava, casada com o seu irmão, mas sem rancor e embora morasse na cidade, era visita assídua da família que tinha na aldeia. O irmão e a cunhada.
A jovem esposa engravidou e quando a filha nasceu, o marido fez questão que o irmão fosse o padrinho, a mulher tinha secretas razões para dizer não, mas assentiu por não ter argumentos para se opor.
Com o nascimento da menina, era esperada a melhoria da relação, mas mesmo assim a situação foi-se deteriorando progressivamente, até que descambou na separação do casal. O marido foi para a capital e morreu pouco tempo depois, num acidente de trabalho, a família não teve direito a qualquer indemnização, por ter sido provado que o acidente teve origem num erro de manobra do acidentado, que estava alcoolizado. O jovem marinheiro tomou à sua responsabilidade a subsistência da cunhada e sobrinha (com o olhar fixo no fogo, a minha patroa contava isto com intervalos longos a separar as frases, a ir ao fundo da memória buscar as recordações).
Quando soube da notícia da morte do marido, a jovem encenou a dor num luto carregado e aguardou o tempo de nojo de um ano para não dar que falar, mas toda da aldeia sabia do futuro predestinado para a jovem viúva, nunca um segundo casamento fora tão esperado e desejado pelo povo. Ela iria finalmente casar com o seu amor de sempre. Assim foi.
Foi o casamento mais assistido da aldeia desde que havia memória. Cantado em verso nas feiras e romarias por cantores populares, que vendiam a sua história em verso, num misto de realidade e lenda.
Do segundo casamento nasceu outra menina e os quatro foram uma família feliz até ao falecimento da jovem mãe, vítima de uma doença fatal, deixando órfãs as duas irmãs ainda garotas.
Chegando aqui a minha patroa emudeceu, como se as palavras lhe ficassem presas na garganta, de olhar fixo nas brasas não me deixava ver os seus olhos, mas eu, pelas pausas que fez, pelo respirar fundo e pela vibração diferente da sua voz, sentia-a emocionada com a sua própria narrativa. Depois quando de novo a retomou, fê-lo com a voz embargada, dizendo que a sua mãe, na derradeira hora da sua vida, a chamou para a sós assumir o seu passado de esposa adúltera, afirmando-lhe nas suas últimas palavras de moribunda: Que ela era filha daquele que tinha como seu padrasto e que a sua meia irmã, era afinal, sua irmã inteira.
Eu ouvi empolgado, mas calado, a minha patroa contar esta paradoxal história de amor e traição e só no fim observei:
Sendo assim, o seu tio, além de padrinho e padrasto também é o seu pai. Ela assentiu com a cabeça e respondeu-me: "E também meu primo, não esqueças".
Calculo que é difícil, a quem porventura leu o que escrevi, acreditar nesta história, mas, em linhas gerais, foi assim que me foi contada. Mas, como disse atrás, é possível que a minha versão esteja muito aquém da que me foi contada.

Ainda naquela noite de Natal, quando a minha patroa se apercebeu da hora tardia, levantou-se e ordenou: "Vamos dormir que já é tarde", depois abanou o marido acordando-o sobressaltado. Ninguém deixou o sapatinho na chaminé para que o menino Jesus colocar nele as prendas (ser o menino Jesus, a dar prendas de Natal, era tradição naquela época, ainda não existia um Pai Natal a fazer tal tarefa). No dia de Natal levantei-me cedo como habitualmente e fui tratar das vacas e soltar as burras, depois voltei à casa para tomar o pequeno-almoço, sentando-me à mesa no meu lugar habitual, ao lado do meu púcaro estava um pequeno embrulho de papel pardo. A minha patroa senta-se ao meu lado e disse-me: "É uma prenda para ti".
Desembrulhei a prenda, era um magnífico canivete com as guarnições do cabo em chifre de boi. Naquele tempo, qualquer rapaz gostaria de ter um canivete como aquele, além de ser útil, também dava estatuto. "Gostas?" Perguntou-me a minha patroa. "Gosto, muito obrigado", respondi, ela então deu-me a face para um beijo, dei-lhe o beijo e a emoção inundou-me os olhos, ela segurou-me a cara e também emocionada beijou-me as duas faces com uma ternura que jamais esquecerei. Até àquela data eu nunca recebera prendas do menino Jesus, isso era privilégio só de alguns, dos que não eram pobres. Às vezes a minha mãe, para desagravar a falta de uma verdadeira prenda de Natal, dava-me uma peça de roupa, geralmente em segunda mão, dizendo que era a prenda do menino Jesus, mas eu não a levava muito a sério, não acreditava na generosidade do boneco do presépio. Este episódio faz-me crer que estive na quinta perto de um ano e meio, lembro-me que era inverno quando regressei à casa da minha mãe.
Saí da quinta porque tive a oportunidade de ir aprender o ofício de carpinteiro naval, o sonho que acalentava, precisamente na oficina do mestre Pedro que finalmente cedeu ao pedido da minha mãe.


Eis agora o que a irmã da minha ex-patroa que me contou... Não consigo reproduzir «ipsis verbis» o que ela disse, mas foi mais ou menos isto: "A minha irmã matou-se (neste momento em que escrevo, toldam-se-me os olhos),  atirou-se ao poço onde caiu e se afogou o filho", depois acrescentou, "Tu sabes, o  filho tinha o mesmo nome que tu, se fosse vivo teria a tua idade". Eu não sabia, não me foi antes contado, se foi insinuado não apanhei. Sabê-lo, mesmo tanos depois, perturbou-me profundamente, o desgosto invadiu-me o peito e a garganta, não consegui evitar que os meus olhos se enchessem de água.
A revelação fez-me tomar consciência de que os gestos de carinho daquele casal para comigo, eram os sinais de uma irremediável nostalgia, que eu, na altura, não soubera compreender, mas que naquele momento se revelaram tão claros que um sentimento de culpa me invadiu. Eu tinha entrado na vida daquele casal, com um efeito catártico no seu drama para depois os abandonar.

Fui para aquela quinta para ser o «criado», mas por ironia do destino, o meu nome era igual ao de um filho que o casal tinha perdido anos atrás num deplorável acidente. Esta coincidência resgatou logo nos primeiros dias, após a minha chegada, a senhora do feitiço melancólico que a aprisionava. Mas eu era o criado, por isso estava-me destinado um tratamento de acordo com essa condição. Porém, aqueles três ou quatro dias de proximidade física, devido à minha enfermidade, fizeram despertar na senhora os seus naturais instintos maternais, aos quais não teve forças para resistir e assim, embora sendo o criado, passei a ser tratado pelo casal, como se fosse seu filho. Agora, passados tantos anos, estas recordações ainda me entristecem. De facto, nunca esqueci o tempo que passei naquela quinta nem o casal de quinteiros. Sobretudo a senhora. Penso nela de tempo a tempo e sempre que o faço, a imagem que primeiro me vem à cabeça, é a dos seus olhos rasos de lágrimas depois do marido lhe dizer o meu nome.
Ainda hoje, nada me toca mais fundo do que lágrimas de mulher.

Diamantino Rosa








domingo, 28 de abril de 2013

A primeira vez


Em jeito de prefácio

Caminho pela rua repleta de esplanadas de restauração, a esta hora a clientela é escassa, paro hesitante à frente de um dos estabelecimentos, um minuto depois decido entrar. Uma decisão um tanto simbólica, um acto solene, digo para mim próprio com ironia. Entro e logo, ainda no limiar da porta, mergulho nas brumas difusas das minhas memórias. O tempo parece não ter passado por aqui, contudo, passaram-se mais de cinquenta anos deste a última vez que aqui entrei. Todavia, há alguns indícios de modernidade, por exemplo: já não existem os bancos de balcão; do tecto já não pende a bola de espelhos e no lugar da Jukebox está agora uma moderna mesa de disc jockey. Contudo, isto não chega para alterar a estranha imutabilidade do espaço, conserva ainda muito da atmosfera de outrora. Até a música ambiente me soa familiar. Das colunas de som sai um clássico de Soul.

Atravesso a sala e ocupo uma mesa junto à parede, aproxima-se uma jovem, que traz consigo um vago perfume a flores, a fazer-me recordar um outro, e pergunta-me o que quero tomar. 
Peço uma cerveja.
Volto a vaguear o olhar pela sala, percorrendo-a de canto a canto, e tento classificar a ainda pouca clientela, constato que toda ela é jovem. Eu sou, seguramente, a pessoa mais velha aqui presente. A uma mesa está sentado um casal jovem e noutras três, grupinhos de jovens de ambos os sexos.
Embora conservando muito do romantismo de outrora, o estabelecimento tem agora uma  frequência mais decente. Antes era ponto de encontro de homens solitários e mulheres da vida, porto seguro de embarcadiços e marujos à procura de mulheres, copos e animação. Hoje, com esplanada a ocupar meia rua, abre de tarde como restaurante a servir tapas e tostas. E à noite, ainda como outrora, funciona como Night Club, frequentado por jovens à procura de diversão e convívio sem os velhos actos à margem da moral.

Não entrei neste bar à procura de diversão, tampouco para esconjurar o passado ou matar a saudade erótica de uma juventude há muito tempo perdida, mas tudo isto tem algo de fascinante, trazendo-me à memória as circunstâncias em que conheci uma certa mulher. Uma mulher que foi para mim como que um paliativo para uma desilusão amorosa.
Chama-se Luísa e, como disse, salvou-me de uma depressão amorosa. Com ela vivi uma fugaz relação de amor, que ainda hoje considero bonita e boa de recordar.
Era mais velha que eu, não muito, mas ainda com o encanto de virgem juvenil. Ela foi a primeira mulher com quem me deitei, daí o fascínio, ou importância, que este bar tem no meu imaginário.



Luísa

Foi num Sábado à noite – Outono de 1963 – quando triste vagueava pela cidade decidi entrar neste bar. Eu nunca tinha entrado num bar nocturno, mas sabia serem poiso de "gajas da vida" –era assim que eram referidos pelos rapazes –. Fiquei parado no limiar da porta, a sala estava mergulhada numa semi-obscuridade, uma bola de espelhos, pendente do tecto, espalhava uma dança de pontos de luz na superfície da pista de dança. Quando os meus olhos se adaptaram à complexa luminosidade, vi-a de perfil, sentada num dos bancos altos do balcão, depois de frente, quando ela olhou para mim.
Deslizei o olhar pela sala procurando um lugar onde pudesse sentar-me, nalgumas mesas estavam garrafas, copos vazios e cinzeiros, que deduzi estarem ocupadas pelos pares que dançavam, outra estava ocupadas por uma mulher e duas outras por uma mulher e um homem. Porém, algumas estavam desocupadas, atravessei a sala e fui ocupar uma junto à parede.
O empregado aproximou-se, pedi uma cerveja.

Parei novamente o olhar na mulher sentada ao balcão, que de mau modo via de frente reflectida num espelho que existia nas prateleiras por detrás de garrafas.

Os olhos dela também ficaram parados nos meus através do espelho até ao instante em que o seu corpo rodou ficando de frente para mim.
Seguiu-se um momento maravilhosamente perturbador. Ela, num gesto de pura sedução, ou manifestação inconsciente da predisposição erótica feminina, abriu ligeiramente as pernas e no seu rosto, algures entre o queixo e a comissura dos lábios, desenhou-se um sorriso. 
A cerveja chegou, bebi meio copo a contragosto, não apreciava cerveja nem qualquer outra bebida alcoólica, mas como tinha que fazer despesa, por um tolo complexo não pedi uma bebida sem álcool, uma laranjada, por exemplo. Voltei-me para a mulher no balcão e novamente prendi nela o olhar.
Fascinado com a visão luxuriosa que afervorava os meus sentidos, já não pensava no acontecimento que me trouxe a esta parte da cidade e entrar neste bar, isso era passado, a minha mente estava agora concentrada na hipótese, ou melhor, no meu desejo de luxúria.

Antes de me alongar no caso da Luísa, devo escrever sobre a desilusão amorosa, que naquela noite me trouxe a esta parte da cidade e entrar neste bar. Não que seja um facto memorável ou excitante, mas vale a pena contar.



Márcia

Eu tinha dezoito anos e vivia sozinho em Lisboa hospedado numa pensão. Um jovem provinciano ainda imberbe e inexperiente no que respeita ao amor e ao sexo. Mas para tudo há sempre a primeira vez e o destino quis que fosse naquele Sábado. O primeiro Sábado em que saí do trabalho ao meio-dia porque a empresa onde eu trabalhava, começou a aplicar a semana-inglesa, uma norma que passou a ser obrigatória, consistia não se trabalhar as tardes dos Sábados.

Na tarde do mesmo dia, entrei numa relojoaria para adquirir o relógio que namorava havia duas ou três semanas sempre que passava na Rua da Prata já com as lojas fechadas. Era um relógio de uma marca japonesa, mas, segundo o relojoeiro, com tecnologia suíça. O relojoeiro apresentou-me duas opções de compra: Um relógio de homem ou senhora, por duzentos e vinte escudos ou um de homem e outro de senhora, por trezentos e trinta, ficando assim o segundo pela metade do preço do primeiro. O relojoeiro foi pródigo em argumentos para me convencer a comprar o segundo relógio:
– Um acessório especialmente desenhado para o pulso delicado de uma menina, ou senhora de bom gosto – e acrescentou uma sugestão que aplaudi – perfeito para oferecer à namorada ou à mãe.
Não foi a pensar na minha mãe que decidi comprar o segundo relógio. Ao pensamento ocorrera-me a quem o iria oferecer. A uma moça brasileira uns anos mais velha que eu, que se hospedara na pensão onde eu estava hospedado. Ele abrir-me-ia certamente as portas à felicidade e ao prazer – duas nobres pretensões, apresso-me a dizer –. Se o resultado foi ou não o esperado, adiante o contarei.
Chamava-se Márcia, tinha-a conhecido umas semanas atrás, também num Sábado. Nesse eu chegara à pensão ao fim do dia e preparava-me para ir tomar um banho, mas ainda no corredor, uma das empregadas, uma minhota de palavrão fácil, ao passar por mim segredou-me:
– Há uma pessoa que te quer conhecer – inquiri, também em surdina, quem me queria conhecer, mas ela em voz alta, já a entrar na sala de costura, disparou: 
– Despacha-te caralho, vais ficar preso pelo beicinho.  
Dito assim, o caso adquiriu um cariz misterioso.
Fui rápido, uns vinte minutos depois, já eu estava à porta da sala de costura querendo desvendar o mistério.
A porta da sala de costura ficava defronte da porta do meu quarto, o que dava muito jeito às empregadas, como o quarto tinha uma pequena sala mobilada com mesa, cadeiras e um sofá, as empregadas descansavam e tomavam ali as refeições, em vez de ser na sala de jantar onde aparecia toda a espécie gente, em troca mantinham-me o quarto e sala muito bem arrumada e decorada e uma delas bordava monogramas do meu nome no peito das minhas camisas.
Quando eu estava na porta da sala de costura, tive que ceder passagem a uma jovem, com ar de árvore em flor, por mim desconhecida, a mesma empregada de há pouco disse-lhe: 
– É este o moço.
A  desconhecida, rodopiou e enfrentou-me, ficou tão perto de mim que não lhe pude apreciar as formas. O rosto sim, de traços inconfundíveis do sangue africano, redondo, de pele morena, lábios afros, que de imediato me excitaram sexualmente, e cabelos negros ondulados – as formas, verdadeiramente esculturais, só no dia seguinte, quando ela percorria o corredor, as pude apreciar. Corpo de ampulheta, também era bonita vista por trás. – Deve ser uma leoa na cama – segredou-me o Zé, um amigo meu também hóspede na pensão, que estava comigo naquele momento.

A moça na minha frente, erecta, com o rosto perto do meu, disse, com o sotaque doce do falar das brasileiras, que tinha muito prazer em me conhecer e encostou os lábios húmidos na minha bochecha, fazendo de imediato subir-me pelas veias uma corrente quente até à cara, que deve ter ficado da cor de camarão cozido. Atrás, imóvel, a empregada minhota observava a minha reação. Mas eu, fascinado como um passarinho pela serpente, não dei um pio. Em certos momentos fico assim, sem saber o que dizer. Era (e ainda sou) muito tímido, de rubor fácil.

A recordação mais recorrente que tenho da Márcia é a do beijo na boca que ela me deu, um dia depois de a conhecer – uma recordação juvenil, que tal como outras recordações juvenis, insiste em sobreviver ao meu envelhecimento –. Foi na minha salinha, para onde no Domingo, ela insistiu que fossemos. Quando nos sentamos ela disse:  
– Queria tanto estar sozinha com você.
Eu, vencendo o encalhamento, perguntei-lhe, gaguejando as sílabas: 
– Porque a senhora queria estar sozinha comigo? 
Ela roçou com os dedos os meus lábios e respondeu:
– Por favor, não me trate por senhora. Queria estar sozinha com você para te conhecer melhor, acho lindo você ter a foto da Rita Pavoni na sua minha mesinha de cabeceira.

Permitam-me que faça aqui um aparte para esclarecer isto:

Naquele ano, a jovem cantora italiana Rita Pavoni, tinha vindo actuar a Portugal, eu fui ver o seu espectáculo no Estoril e no final consegui receber das mãos dela, uma fotografia autografada, que na falta da fotografia de uma namorada, porque uma namorada me faltava, coloquei numa condigna moldura prateada, que comprei para o efeito. Era assim, a primeira imagem a olhar ao acordar em cada dia, e a última antes do sono. Algumas vezes sonhei com ela.

Disse-lhe que a fotografia fora a própria Rita Pavoni que me oferecera e ela perguntou-me: 
– Então você namora ela?
A inflexão que deu à frase fê-la soar zombeteira, assaltou-me então a desagradável suspeita de que ela se estava a divertir à minha custa, mas esta sensação só durou um segundo, pois desvaneceu-se quando ela, pousando delicadamente a mão sobre a minha, acariciando-a, disse que me achava muito bonito. Era um cliché, mas um sentimento da presunção encheu-me a alma. Foi nesse instante magnético que aconteceu o beijo. Por instinto tentei desviar a cara, quando ela ainda segurando a minha mão, debruçou-se sobre a mesa e aproximou o seu rosto ao meu, fazendo-me sentir o calor do seu hálito, mas não consegui evitar que a sua boca chocasse com a minha. Não resisti, deixei-me levar pela volúpia do beijo. A sensação voluptuosa provocou-me uma imensa vontade de rir, com que a contagiei, rimo-nos à gargalhada durante largos minutos. 
Foi um beijo que me deixou na boca o gosto antecipado do paraíso. Ainda hoje tenho sensação da sua língua a entrar e rodopiar na minha boca, como a recordação mais doce da minha adolescência.
Apercebi-me nos dias seguintes, que ela estava mal financeiramente, esperava a data marcada num voo para regressar ao Brasil. Era fumadora e quando eu a via triste sabia que era por falta de nicotina no sangue, então fazia o que me era possível fazer para a alegrar, comprava-lhe um maço de Marlboro. Eu que não fumava, e apesar da minha insistência para que ela deixasse de fumar, sustentei-a a tabaco e para lhe adoçar a boca, oferecia-lhe bombons de chocolate que ela depois repartia comigo passando directamente da boca dela para a minha, em sôfregos beijos achocolatados.

Naquele Sábado, depois de comprar os relógios, ainda comprei na loja ao lado um frasco de água-de-colónia e, numa outra, uma gravata de seda. Apressei-me então a ir para a pensão para tomar banho e vestir-me a rigor, pois tínhamos combinado sair para jantarmos fora e vermos actuar o Duo Ouro Negro na Cubata, um bar em forma de cubata africana que eles tinham no Campo Grande. Não era certamente o sítio mais apropriado para um jantar romântico, mas ela manifestava interesse em conhecer pessoalmente o Raul Indipwo, que supunha ser seu parente, pois partilhavam o mesmo apelido. Haveria ainda uma terceira parte no programa, esta sugerida por ela, seria até a mais interessante da noite. Ainda recordo o seu sorriso malicioso quando disse: 
– Depois será o que Deus quiser, não é meu bem?
Uma frase que durante os dias imediatos se repetiria na minha cabeça como o refrão de uma canção ouvida ao despertar. Na verdade, foi para forçar esta terceira parte do programa, que eu comprei o segundo relógio japonês.

Tinha imaginado, ensaiado e aperfeiçoado cada gesto, cada frase a fazer uso para a impressionar no momento que lhe ofereceria a caixa aveludada com o relógio dourado – especialmente desenhado para o pulso delicado de uma senhora ou menina de bom gosto – tinha dito o relojoeiro da Rua da Prata.
Tencionava dizer-lhe que ela seria a mulher mais importante da minha vida e, se fosse capaz, dir-lhe-ia que ela seria a primeira mulher com quem me deitaria. Como insinuei, eu ainda era virgem, embora já tivesse antes uma namorada, mas não vale, de todo, a pena falar dela, pois não passou de um esboço de namoro, apenas animado por beijos leves e apalpadelas.
Cortei a barba, tomei banho e até perfumei as miudezas. Vesti-me depois de acordo com a felicidade esperada: Cuecas e peúgas brancas de algodão; Calças de fazenda em azul escuro feitas por medida; Camisa de popelina branca com o monograma do meu nome no peito; Gravata de seda chinesa de cor escarlate a estrear, e por fim um blusão azul claro. Refiro tudo isto só para que avaliem o quanto janota eu estava para aquela época, a meio dos anos sessenta. Coloquei um pouco de brilhantina nas mãos e passei-as pelo cabelo que penteei com uma poupa, guardei o pente numa das peúgas para sempre que necessário refazer a poupa.
Sentei-me comodamente no sofá, peguei num livro e tentei concentrar-me na leitura, para não receber a minha amada com os olhos ansiosos. Mas ela demorava e eu, na expectativa de a ver assomar-se à porta, ia contando os minutos de um a um, sem conseguir concentrar-me na leitura.
Como a espera estava a prolongar-se demasiado, a expectativa deu lugar à preocupação, por isso fui ao quarto dela no segundo piso. Bati à porta, esperei, voltei a bater, mas ela não respondeu. Desci e fui à sala de costura saber se sabiam dela, fui então informado pela empregada minhota que ela tinha saído com o Zé.
Poucas vezes a metáfora do "soco no estâmago" terá sido tão apropriada.
– Porquê com o Zé?
Não esperei resposta, a pergunta, mesmo que audível, foi a mim próprio. Eu não era coxo, nem marreco, nem estrábico, mas também não era bonito. O Zé era-o. Era bonito e elegante como um galã de cinema, tinha essa vantagem sobre mim.


Acho que não será demais apresentar-vos um pouco melhor este meu amigo.
O Zé era um Don Juan, no sentido pleno desta expressão, era mais velho e encorpado do que eu, puxava pela musculatura num ginásio. Empregado numa loja de pronto a vestir na baixa lisboeta. Ganhava mal, ao contrário de mim, mas vestia bem. Junte-se a isto um grande poder de persuasão, era, como se costuma dizer, capaz de impingir frigoríficos aos esquimós. Acrescente-se a também o seu porte viril, de uma beleza facial e olhar azul a fazer lembrar Paul Newman.

Perguntei à empregada quanto tempo havia que eles tinham saído, e ela malcriadamente respondeu-me: 
– Neste momento já devem estar a foder.
Desculpem, por mais uma vez escrever uma palavra obscena, não é que goste deste tipo de linguagem, mas tão só, porque quero ser o mais possível fiel aos acontecimentos e, como disse atrás, a empregada era minhota e no falar do Minho estas palavras não soam a obscenidade.
Ferido na minha masculinidade não consegui esconder a decepção e os meus olhos marejaram-se... Aliás, duas decepções. A primeira porque não a imaginava capaz de uma traição. A segunda por ter sido com o Zé, que supunha ser meu amigo. Imaginei-o no usufruto daquilo que já considerava meu e pela primeira vez na minha vida senti-me capaz de matar alguém. Pura fantasia, claro, não sou sequer capaz de esmagar um insecto. Apenas fiquei com uma pontinha de raiva pelo Zé, mas como sempre fui de humores volúveis, uns dias depois já tínhamos a nossa amizade reconstruída.

Naquela noite ainda fui à Cubata do Duo Ouro Negro, para ver se o peralvilho também me tinha roubado o programa, e quando me dirigia para a entrada estava a sair um casal. Não consegui vê-los bem, porque estava escuro na rua, porque vestiam escuro e a única luz que havia estava por detrás deles. Sentindo o sangue a subir-me à cabeça aos borbotões, cosi-me conta a parede no abrigo da escuridão, até que os vi abalar no táxi, que entretanto chegou. Eram eles, confirmei mais tarde, o Zé e a minha brasileira. Que falsa! – Depois será o que Deus quiser, não é meu bem? – Tinha ela dito a mim uns dias antes.

Desiludido e frustrado ocorreu-me uma resolução desesperada, ir divertir-me algures na cidade. Não importava onde, tinha à disposição todos os bairros e ruas de Lisboa.
E foi assim, vagueando como náufrago num mar de frustração, que dei à costa neste bar onde me encontro agora.
A vida é feita de ilusões e desilusões, fim de caminhos que dão origem a novos caminhos, de amores que substituem outros amores.

Uns dias depois a Márcia regressou ao Brasil e o Zé contou-me tudo. Ela era de facto uma leoa na cama, como ele presumiu.


Regressemos agora à Luísa

Quando entrei e a vi, logo um detalhe me despertou a atenção, ela ser muito bonita, mas naquele momento já via como ela era sensual. De saia curta, sentada no banco alto, de pernas ligeiramente abertas, mostrava umas coxas suculentas, fazendo-me vítima de uma insólita excitação sexual. Uma sensação análoga à que senti com a Márcia no dia em que a conheci, só que mais acentuadamente. Confesso que me sentia confuso e temeroso dos meus pensamentos, dos meus desejos indizíveis.

Quando olhava para as outras mulheres elas sorriam-me, como quem sorri para uma criança. Deviam achar-me novo demais para estar ali. Nenhuma delas era nova, pelo menos não tão nova como a mulher sentada ao balcão.
Eu nunca me tinha deitado com uma mulher e ansiava que isso viesse acontecer, tinha pressa que isso acontecesse e desejava que fosse naquela noite. Ser virgem parecia-me ser pouco próprio para a minha idade, daí a urgência. Mas como era muito tímido, não tive a iniciativa de me dirigir à mulher que me esperava no balcão, embora fervesse de desejo.
Mudei de cadeira, como se a simples mudança de lugar me libertasse da perturbação erótica que se apossou de mim. Para me distrair, e acalmar os rebates do desejo, procurei refúgio na visão dos pares que dançavam. 

Minutos depois, uma fragrância a flores e uma voz de mulher tiraram-me repentinamente do transe: 
Amor! Posso sentar-me?  
O meu coração acelerou, senti-o palpitar no pescoço, e de imediato fui invadido por uma sensação de calor. Rodei e levantei a cabeça na direcção das palavras para confirmar o que imediatamente supus. Era ela que estava ali na minha frente. 

Olhei-a atentamente, procurando adequar o meu rosto a uma expressão de simpatia, enquanto os meus olhos percorreriam todo o seu corpo; as pernas grossas, o ventre redondinho, o peito generoso, a boca entreaberta num sorriso quase infantil, os olhos redondos de cílios inquietos. Não pude evitar estremecer diante da singular beleza do seu todo. Não que ela tivesse uma figura de revista de moda, mas a diferença era a seu favor, pois tinha seios generosos. Houve um outro raciocínio: Havia nela um lapso discordante, algo que eu não gostaria que mulher minha usasse. A saia de pouco pano e a blusa com decote panorâmico, Justa, que lhe acentuava o arredondamento do corpo, eram como um cartão de visita onde, como os dos profissionais liberais, indicava qual a sua actividade profissional.  
– Amor! Posso sentar-me? – Repetiu.
A voz fazia justiça ao seu corpo e beleza, encorpada e encantadora. Disse-lhe que sim, que poderia sentar-se. Ela então, com um sorriso estendeu-me a mão. Aceitei o cumprimento e levantei-me para lhe ajeitar a cadeira, mas ela antes de se sentar pediu-me uma moeda para pôr a tocar uma música. Depois, já com a moeda, rodou o corpo com uma elegância geométrica e dirigiu-se para a Jukebox, eu fiquei naqueles breves minutos vendo-a por trás, encantado com a sua figura curvilínea. Ela, junto à máquina de música, como se adivinhasse os meus pensamentos olhou para mim, sorriu e num movimento quase imperceptível dos lábios enviou-me um beijo. Quando voltou perguntou-me a idade. Eu menti, disse-lhe que tinha vinte e um anos. Nisto irrompe a voz doce de Lynn Anderson "Rose Garden", a música que ela escolheu.
– Parece mais novo – observou e perguntou-me se eu queria dançar, disse-lhe que não, então sentou-se frente a mim.
A proximidade com a sua feminilidade embaraçou-me agradavelmente.  
Atentei nos seus lábios, espessos, húmidos e suculentos, como, se movido por cândida ternura, lhe tocasse com os meus.
Era de facto muito bonita, demasiado bonita para estar ali, pensei. 
Ela perguntou-me se podia pedir uma bebida para ela, disse-lhe que sim, então fez sinal ao empregado, e este não tardou a servir-lhe uma taça de champanhe. Champanhe que, vim a saber posteriormente, era gasosa de má qualidade. Ainda não tinham passado dois minutos ela dispara à queima-roupa: 
– Querido! Vamos fazer amor?
Demorei um pouco, não por me faltar resposta convicta, mas aquela proposta tão peremptória e inesperada, fez  com que eu ficasse sem saber como lhe responder. Perante o meu silêncio ela acrescentou: 
– São só duzentos e cinquenta escudos e o quarto – alguma ruga na minha face lhe terá sugerido que seria demais para mim, pois logo acrescentou – eu pago o quarto.
Eu continuei mudo, mas fiz mentalmente uma contabilidade cujo balanço deu um saldo favorável à proposta. Pensei naquela que namorara durante três semanas, e que amava, com quem devia estar naquele momento e imaginei-a nos braços do meu melhor amigo e como para esquecer o amor por uma mulher não há nada como o amor por outra, quis amar a que tinha à mão. Apurando o melhor que podia a dicção, para não parecer demasiado ansioso, disse-lhe: 
– Nem sequer sei o teu nome.
Tratei-a por tu sem dar por isso, e ela pela primeira vez também a mim.  
– Não sabes mas eu digo-te, Luísa. 
Gostei do nome dela, o que contribuiu para aceitar o convite. Mas achei que antes devia-lhe fazer uma confidência. Concentrei-me para não gaguejar, mas gaguejei:  
– Não sei como me portarei, é que ainda sou... 
Foi ela que se encarregou de completar a frase: 
– Virgem!
Ficamos, tanto ela como eu, alguns segundos em silêncio, como que a esperar que a palavra «virgem» assentasse. Depois ela, molhou a boca no champanhe, e com o rosto a dissolver-se num sorriso, debruçou-se sobre a mesa e aproximou a sua cara da minha, os seus lábios afloraram a minha orelha:  
– Não sejas tolo  – disse, como se fosse um segredo – a tua virgindade é um trunfo, faz-te extremamente sedutor – depois acrescentou – serei muito carinhosa contigo.
– A minha virgindade é um elemento de sedução?  – inquiri.
– Podes crer, é parte do teu encanto.
Depois permaneceu a sorrir afectadamente à espera da minha resposta, que obviamente foi: 
– Então vamos. 

Paguei a taça do falso champanhe e a cerveja, que só bebi metade, ela foi vestir o casaco e saímos para a rua. Estava frio e ela, com uma candura inusitada, puxou-me o fecho éclair do blusão até à gola, eu meti as mãos nos bolsos, ela desdobrou as abas do casaco que vestia, ficou a segurá-las com uma das mãos e a outra passou-a pelo arco do meu braço. Para mim a situação era tão nova, tão estranha que, num misto de vergonha e vaidade, senti-me alvo de todos os olhares, imaginei transeuntes a riram às esconsas, todavia, a rua estava deserta. Agora tento lembrar-me daquela noite e vejo um casal de namorados noctívagos numa noite fria a percorrer a rua sem nada que chamasse atenção. 

Como namorados, percorremos pouco mais de duas centenas de metros até que ela parou defronte da porta de um prédio. Foi dominado por uma tranquila expectativa que transpus a porta atrás dela.
Continuando atrás dela subi as escadas num ímpeto que foi aquecendo a cada degrau até entrarmos num apartamento e depois num quarto. Ela trancou a porta e sem pingo de pudor despiu-se à minha frente, tão delicadamente como uma serpente a sair da sua própria pele. Eu, subjugado pela visão do seu corpo nu, não me atrevi a mover-me. Era a primeira vez na vida que experimentava o gozo de ver ao vivo uma mulher completamente nua. Ela ficou quieta, deixando-me apreciar o seu corpo. Os meus olhos perscrutam cada pormenor, era rechonchudo, a pele branca, os seios ainda mais brancos, o esquerdo um pouco maior do que o direito, e os mamilos rosados, o triângulo do púbis parecia desenhado a lápis de carvão. Desejei tocá-la, abraçá-la, acariciá-la, quis avançar para ela, mas, como num pesadelo, as pernas não me obedeceram. Tentei dizer alguma coisa, mas a emoção teceu-me uma teia na garganta e as palavras ficaram presas na armadilha. Ela permanecia quieta, a uma distância de dois ou três passos, também com os olhos fixos em mim, húmidos, não sei se comovida pelo meu êxtase, se pelo meu pudor em lhe tocar, ou pela minha cara de pateta, certamente a fazer-lhe lembrar a cena de algum filme de Jerry Lewis.
– Despe-te querido! 
E eu, superando o sentimento de vergonha, descalcei os sapatos, despi o blusão e a camisa, depois as calças, mas deixei ficar as cuecas, foi ela que avançando as puxou para baixo. O meu sexo, como que impelido por uma mola, saltou, teso e pulsante.
Ela recuou um pouco e quedou-se a observar a minha virilidade, era evidente que se apercebia da importância do momento, não pelo prazer que ela própria tivesse, mas pelo prazer que me proporcionava.
Retirei as cuecas que ficaram a tapar-me os pés. E, completamente nu, senti-me bem com a minha nudez. Um bem-estar excitante.
Ela retirou a colcha da cama e caiu nela pesadamente de costas. A sua pele branca confundiu-se com a brancura os lençóis, como se o seu corpo se diluísse neles, estendeu os braços para mim e, com um certo prazer no timbre vocal, disse:   
– Vem amor! Fode-me!
Sentindo-me como um passarinho na hora do seu primeiro voo, prestes a se lançar no vazio. Fui.

A primeira vez nunca se esquece, e ainda me excita recordar a minha primeira noite de amor, sei que devia escrever amor entre aspas, ou sexo em vez de amor, mas prefiro assim. É que na verdade passamos a noite em plena de felicidade como dois amantes, comungando um do outro momentos de pura intimidade. Fazendo amor várias vezes.
Estava extenuado, esgotado, sonolento, mas nem por isso queria sair dali, ir para a pensão onde vivia, acabar a noite, descansar, dormir. Ela também não me apressou. Adormeci e quando acordei estava abraçado a ela, e ela dormia  (Não era normal isto acontecer, entendi mais tarde, uma mulher que ganhava a vida com encontros descomprometidos, ficar e adormecer no primeiro encontro com um cliente, quando este apenas pagara para ser fortuito).

A claridade da madrugada entrava debilmente no quarto através do reposteiro da janela, ouviam-se carros a circular na rua, do corredor soaram passos interrompidos diante da porta do quarto, depois prosseguiram.
A Luísa acordou quando a libertei do abraço e perguntou-me se eu queria outra vez.

Depois de mais uma vez vestimo-nos, ao vestir o blusão, senti no bolso o relógio comprado para oferecer àquela que me trocara pelo meu amigo e ofereci-lhe. – creio que este gesto reforçou o nosso relacionamento futuro. Em todos os futuros encontros, sempre a vi usando o relógio – Depois contei-lhe a história do relógio, como fui traído pela Márcia e pelo Zé e ela comoveu-se.
– Amar nem sempre é fácil meu querido, esquece-a, encontrarás outra mulher a quem amar  – comentou. A compaixão que emanou da sua voz, deu-me vontade de a beijar, mas contive o desejo – era de senso comum que prostituta não beija cliente.

Vestidos e sentados na cama, ficamos algum tempo a conversar, contei-lhe a minha vida carregada de atribulações – logo naquela noite a Luísa tornou-se a minha confidente.
Na hora de nos separarmos, o meu coração caiu num frenesi, que na candura dos meus 18 anos confundi com amor. Apeteceu-me dizer que a amava, mas contive-me, achei que seria a coisa mais ridícula que diria na minha vida. Contudo, passei a mensagem apertando-a contra mim.
– Adeus, até um dia! – Disse-lhe.
– Boa sorte meu anjo! – Disse ela abraçando-me com força – quando quiseres, sabes onde me encontrar. As nossas bocas aproximaram-se, pousei os meus lábios nos dela. Beijamo-nos pela primeira vez.

Foi assim, deste modo, que fiz a minha entrada na sexualidade adulta. Importa frisar, que naquele tempo era assim, com uma profissional do sexo que, na generalidade, os jovens iniciavam a sua vida sexual.


Em jeito de posfácio

Após o primeiro encontro com a Luísa, desenvolvi o sentimento de ter caído em paixão. Só pensava numa coisa: encontrar-me de novo com ela. Saborear mais uma vez a sensação inefável dos orgasmos induzidos por uma mulher. O meu corpo sentia necessidade do corpo dela, o meu sexo do sexo dela, a minha boca da boca dela. Passei os dias e as noites seguintes visualizando cada segundo daquela noite, numa filigrana mental tão intensa que só por a recordar me excitava e me levava à masturbação.

Voltei a este bar no Sábado seguinte à mesma hora. Depois nos outros Sábados e a cena repetia-se como um ritual. Eu entrava no estabelecimento e sentava-me a uma mesa, muitas vezes neste preciso local onde me encontro. Ela vinha ter comigo oferecendo-me a face para um beijo, eu beijava-a e ela depois retribuía com um seu humedecendo os lábios. De seguida eu entregava-lhe uma moeda para ela pôr a tocar na Jukebox uma música que ela sabia agradar-me e sentava-se ao pé de mim. Ficávamos conversando uns minutos até eu pagar a despesa e dizer-lhe: 
  – Vamos!
Tantos anos já passados ainda me lembro com uma nitidez absoluta, quase fotográfica, a figura da Luísa, o seu rosto redondo; o seu sorriso virginal; o seu corpo roliço; a sua pele clara, os seus lábios carnudos que ela me deixava beijar. 
– És o único homem que eu consinto que me beije na boca – disse-me ela uma vez e eu beijava-a sempre, sempre com sofreguidão.
Lembro-me do que ela me disse na última noite em que estivemos juntos:  
– Amo-te! Quero ser só tua! Quero viver contigo! 
Palavras que me perturbaram bastante.

Aconteceu também num Sábado. Naquele procurei-a sem outra intenção do que falar com ela, nem levava dinheiro que desse para lhe pagar fosse o que fosse para além da taça do champanhe a fingir, que aliás, ela não bebia por lhe fazer arrotar.
Estávamos juntos, como habitualmente, numa mesa depois de ela ter posto a tocar uma música, com a moeda que lhe dei. A música terminou e eu paguei as bebidas, mas como me demorava a convidá-la, foi ela a dizer:  
– Vamos?
Eu respondi: 
– Não! Hoje não vamos, nem trouxe dinheiro.
Então ela, após alguns momentos de meditação, levantou-se solicitando que a esperasse. Virou-me as costas e afastou-se, vi-a depois no canto do balcão a telefonar. Quando voltou disse-me: 
– Vamos – e puxou-me pela mão.
Seguimos de mãos dadas por ruas, becos e ruelas do bairro até, não sei se uma pensão de luxo, hotel ou casa particular, que ainda hoje não sei onde ficava. Lembro-me que a fachada do prédio parecia de um palacete, lembro-me do quarto amplo, de uma frescura de capela medieval, cheirando a cera e alfazema, um cheiro que ainda hoje me perfuma a memória. Da casa de banho luxuosa, com uma enorme banheira de pedra, também me lembro. Aquele quarto era o que mais próximo havia do paraíso, estava a mil anos-luz dos sórdidos quartos nas pensões manhosas com lavatório, sanita e bidé a um canto. Ainda não há muitos anos, numa visita a este bairro, recordei este episódio e sem uma pista concreta, vagueei à toa pelas ruas e ruelas por onde, na minha memória, ela me tinha levado pela mão naquela noite. Mas debalde! Não encontrei o prédio cujo frontispício recordo bem. 

Era uma situação deveras excitante pelo luxo, mas tinha tanto de excitação como de absurdo. E a minha curiosidade estava tão excitada como estava o meu sexo. Atropelavam-se em mim as tentativas de compreender o absurdo, tudo aquilo teria de ser pago e seria ela a pagar, gastaria certamente naquela noite muito do lucro que já tivera comigo. Até porque ultimamente já não me cobrava pelos encontros. Eu não entendia a razão, mas a resposta seria dada por ela na tal frase.
Tomamos, como já era habitual, banho juntos, depois ficamos nus todo o tempo a fazer amor, numa cama com lençóis a cheirar a lavado. Sem limite de tempo, sem limite de vezes desfrutando mútuo prazer. Convencido que os orgasmos dela eram reais. Ainda hoje mantenho esta convicção.
No auge da luxúria caí na asneira de lhe dizer uma romancice: 
– Amo-te Luísa!
Este verbo amar não devia ser entendido na sua plena literalidade, isto é, no sentido de inclinação do coração e da alma, pois o que realmente significava, era que amava fazer amor com ela, mas ela não entendeu assim e sussurrou-me: 
– Também te amo muito e quero ser só tua! … Amo-te! Quero ser só tua! Quero viver contigo! – Repetiu esta frase outras vezes, como se lhe saísse automaticamente da garganta sem ela ter disso a noção.
Não me perturbaram tanto as palavras, quanto a sincera maneira com que ela as pronunciou: 
– Amo-te! Quero ser só tua! Quero viver contigo! 
Foi neste momento preciso que qualquer coisa estalou no meu cérebro. Ela queria e estava-me a pedir que eu a resgatasse daquela vida. Isto devia-me tocar fundo, ser desejado desta maneira, ser amado. Mas aquela declaração pareceu-me excessiva. A minha também fora. 

Agora, que revejo essa cena à distância de cinquenta anos, compreendo melhor e se pudesse voltar atrás no tempo, regressar àquele quarto, agiria de outro modo, mas na altura eu era demais preconceituoso. Naquele tempo o machismo ainda exigia sangue na primeira noite do casamento.
Na hora de nos separarmos, ela pediu-me para nos encontrarmos, ainda na noite daquele dia, neste bar onde me encontro agora para conversarmos melhor.
Despedimo-nos com um ligeiro beijo nos lábios. Segui para o bairro onde vivia com as palavras dela tinindo na minha cabeça. – Amo-te! Quero ser só tua! Quero viver contigo!
Foi o ponto final – que muita vez desejei ser apenas ponto e vírgula – de uma fugaz história de amor.
Demorou um certo tempo, até o meu corpo deixasse de ter saudade do corpo dela. 
Nunca mais vi a Luísa. Por vezes penso que ela foi talvez a primeira, se não a única, mulher que realmente me amou.

Diamantino Rosa